A
Profecia Cíclica e a Amnésia Espiritual: O Marketing da "Virada"
Todo
mês de dezembro, a cena se repete nos grandes templos e nas transmissões ao
vivo de milhares de seguidores. A iluminação diminui, o teclado faz um fundo
musical emotivo e o pregador — que se autodenomina profeta — toma o microfone
para declarar a sentença anual: "O ano que passou foi de lutas, mas o
ano que entra será o ano da Colheita, o ano da Dupla Honra, o melhor ano da sua
vida."
Essa
liturgia do otimismo, contudo, esconde uma contradição lógica insustentável que
revela a natureza humana (e não divina) dessas promessas.
O
Paradoxo da Profecia Vencida
O
exemplo de influenciadores religiosos como Deive Leonardo ilustra
perfeitamente essa falha. A estrutura do discurso segue um algoritmo de
esquecimento:
1. Na
virada de 2024 para 2025, a promessa foi de que 2025 seria o ano
da vitória, apagando as dores de 2024.
2. Na
virada de 2025 para 2026, o discurso se altera. Para vender a
esperança de 2026, o pregador precisa validar a dor atual do ouvinte,
classificando 2025 como um ano "difícil" ou de "lutas" que
precisa ser superado.
A Contradição: Se o profeta garantiu em janeiro de 2025 que aquele seria o "ano da vitória", por que em dezembro ele concorda que foi um ano de derrota?
Eles
apostam na "amnésia espiritual" do público. Ao classificar o ano que
se encerra como "ruim", eles geram conexão imediata com a frustração
humana, preparando o terreno para vender a próxima ilusão. É a Teologia do
Coaching travestida de Evangelho: ciclos de motivação que nunca se cumprem,
exigindo uma "renovação de assinatura" da esperança a cada 365 dias.
O Que
Diz a Bíblia?
Os
profetas bíblicos não eram animadores de auditório. Eles anunciavam juízo e
arrependimento, não apenas prosperidade incondicional.
· Jeremias 23:16-17
adverte contra aqueles que "falam as visões do seu próprio coração, não
da boca do Senhor" e que dizem "tereis paz" quando
não há paz.
· Jesus (João 16:33) foi
honesto e realista, prometendo o oposto desses gurus: "No mundo tereis
aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo." A vitória cristã é
sobre o mundo, não necessariamente no sucesso financeiro ou emocional do
ano seguinte.
Conclusão
Pastores
que usam o púlpito para massagear o ego com promessas de "o melhor ano da
sua vida" todo mês de janeiro não estão pregando o Evangelho da Cruz, mas
sim vendendo dopamina espiritual. Eles transformam Deus em um gênio da lâmpada
e a fé em uma ferramenta de autoajuda. O verdadeiro Evangelho nos sustenta
tanto no ano da colheita quanto no ano da seca, sem precisar de falsas
profecias para manter a igreja cheia.
"Na virada de ano, a farsa se revela: para vender a ilusão de 2026, o falso profeta precisa chamar 2025 de derrota, confessando assim que a promessa de vitória feita em 2024 era mentira."

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