No
cenário evangélico contemporâneo, é comum a crença de que os cristãos são
chamados a perdoar unilateralmente e incondicionalmente todos os pecados que
sofrem. Essa visão, muitas vezes influenciada por uma cultura terapêutica,
sugere que o perdão serve primariamente para libertar a vítima da amargura,
independentemente da postura do ofensor. No entanto, uma análise cuidadosa das
Escrituras e da tradição reformada revela que o perdão interpessoal autêntico —
aquele que culmina na reconciliação — exige o arrependimento.
A
seguir, apresento os fundamentos teológicos e exegéticos que demonstram por que
o cristão não é obrigado a conceder o perdão relacional a um ofensor
impenitente.
1. O
Padrão do Perdão Divino
O
perdão que devemos estender aos outros tem como modelo o perdão que recebemos
de Deus. Como argumenta Matt Ferguson, "O perdão é, antes de tudo, uma
ação de Deus para com seu povo rebelde... aprendemos o perdão com Ele".
As Escrituras ensinam que devemos perdoar "assim como Deus em Cristo
nos perdoou" (Colossenses 3.13; Efésios 4.32).
Deus é
infinitamente misericordioso e amoroso, mas o Seu perdão não é incondicional;
Ele exige arrependimento e confissão. A promessa bíblica é clara: "Se
confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar"
(1 João 1.9). Lewis Sperry Chafer destaca essa dinâmica na vida do crente,
afirmando que "a responsabilidade que vem sobre o homem regenerado que
seria perdoado e restaurado em suas relações corretas com Deus é expressa em
uma única palavra – confessar". Se o perdão do próprio Deus está
condicionado ao arrependimento do pecador, o perdão interpessoal cristão deve
seguir a mesma "gramática divina".
2. A
Clareza Exegética de Lucas 17 e Mateus 18
O
ensino de Jesus nos Evangelhos Sinópticos vincula diretamente o perdão ao
arrependimento. Em Lucas 17.3–4, Jesus estabelece uma estrutura condicional
inequívoca: "Se teu irmão pecar, repreende-o; e, se ele se arrepender,
perdoa-lhe".
John
McKinley observa que o que frequentemente se perde na compreensão moderna é que
o mandamento exige o confronto ("repreende-o"). Apenas após a
tomada de consciência e o arrependimento do ofensor é que o perdão deve ser
estendido.
R.C.
Sproul, ao analisar a parábola do credor incompassivo e as instruções de
disciplina na igreja em Mateus 18, esclarece esse ponto:
"Nós
certamente temos o direito de, a qualquer momento, conceder perdão unilateral
àqueles que pecaram contra nós, mas não devemos confundir isso com uma
exigência divina... se fôssemos sempre obrigados a conceder perdão a quem pecou
contra nós, então o ensinamento de Jesus sobre a disciplina da igreja (Mt
18.15–20) – segundo o qual devemos confrontar os indivíduos que nos ofenderam
e, se necessário, levá-los à igreja – não faria sentido."
3. Os
Perigos do Perdão sem Arrependimento
Quando
o perdão é concedido sem que haja contrição, graves distorções morais e
teológicas ocorrem. Mike Wittmer, citando o teólogo Chris Brauns, apresenta
razões vitais pelas quais não devemos perdoar (no sentido transacional) sem o
arrependimento:
· Risco Moral: Pagar
a dívida moral de um ofensor impenitente o isenta de responsabilidade,
ensinando-lhe que pode "sair impune" e encorajando a
reincidência.
· Falta de Seriedade Moral:
Ignorar a ofensa minimiza o mal cometido. O verdadeiro perdão leva o pecado a
sério e exige responsabilidade antes da restauração.
· Reducionismo Terapêutico: O
perdão passa a ser uma ferramenta egoísta de "saúde mental" (ex: "Eu
o perdoo para que eu possa seguir em frente"). O perdão autêntico e
bíblico, contudo, visa a reconciliação e a restauração do ofensor, o que é
impossível sem que ele reconheça sua culpa.
4.
Distinguindo a Disposição do Coração da Transação do Perdão
Se não
perdoamos o impenitente, estamos fadados à amargura? Os teólogos reformados
fazem uma distinção crucial entre a disposição para perdoar (no coração)
e a concessão do perdão (na relação).
O
comentarista William MacDonald estabelece os estágios dessa administração:
1. No
Coração: Quando ofendido, o cristão deve liberar o ressentimento
imediatamente diante de Deus (Efésios 4.32), evitando raízes de amargura.
2. A
Retenção Relacional: "Apesar de ter perdoado no meu
coração, eu ainda não conto para ele que ele está perdoado. Não seria justo
administrar perdão publicamente até ele se arrepender."
3. A
Concessão: Logo que o ofensor confessa o pecado, o perdão relacional
é concedido (Lucas 17.4).
John
McKinley complementa que, diante de um agressor que se recusa a assumir a
responsabilidade, nossa resposta não deve ser o perdão ilusório, mas a entrega
da injustiça a Deus (Romanos 12.19). Isso nos liberta do fardo da vingança sem
forçar uma reconciliação que, na ausência de verdade e arrependimento, seria
apenas uma falsidade relacional.
5. O
Ciclo Incompleto: O Perdão Que Não Se Fecha
É
vital compreender que o perdão relacional possui uma natureza bilateral; ele
forma um ciclo. Para que o ciclo do perdão se feche, são necessárias duas
atitudes convergentes: a disposição graciosa de quem perdoa e o arrependimento
sincero de quem ofendeu.
Quando
não há arrependimento, esse ciclo é irremediavelmente quebrado. Na prática,
isso significa que "perdoar" alguém que não reconhece seu erro e não
se arrepende não valerá de nada, no fim das contas, para o ofensor. Como
ilustra o teólogo Mike Wittmer ao descrever uma vítima que confia a ofensa a
Deus e libera o ressentimento de seu coração diante de um ofensor impenitente: "Ela
está livre, mas ele ainda não."
O
ofensor que rejeita o arrependimento rejeita também a eficácia e os benefícios
do perdão. Ele permanece prisioneiro de sua própria culpa, amarrado à sua
dívida moral e sujeito à justa disciplina de Deus. Portanto, um perdão que não
é recebido com contrição é um perdão nulo em seus efeitos relacionais, pois a
harmonia e a reconciliação jamais se concretizam.
Conclusão
A
exigência do arrependimento para o perdão não é uma desculpa para a amargura,
mas um reflexo do caráter de Deus, que é plenamente justo e infinitamente
misericordioso. O cristão é chamado a ter um coração perdoador, pronto para
estender a graça "setenta vezes sete" (Mateus 18.22) sempre
que houver contrição. No entanto, a absolvição e a reconciliação relacional
permanecem condicionadas à confissão do ofensor. Omitir o arrependimento é
baratear a graça e enfraquecer a seriedade do pecado que Cristo comprou com Seu
próprio sangue.
Referências
Bibliográficas
- BANCROFT, Emery H. Teologia
Elementar: Doutrinária e Conservadora. 3ª ed. São Paulo: Editora
Batista Regular, 1960.
- CHAFER, Lewis
Sperry. Teologia Sistemática, vol. 2. São
Paulo: Hagnos, 2013.
- FERGUSON, Matt. A
Bíblia nos manda perdoar quem não se arrepende? (Parte I). Traduzido e
publicado por Voltemos ao Evangelho / Ministério Fiel, 2026.
- FULLER, Andrew. O
Evangelho digno de toda aceitação: Ou o dever de todo pecador de crer em
Jesus Cristo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Pro Nobis Editora, 2020.
- LOPES, Hernandes
Dias. Mateus: Jesus, o Rei dos Reis. Comentários
Expositivos Hagnos. São Paulo: Hagnos, 2019.
- MACDONALD,
William. Comentário Bíblico Popular: Novo
Testamento. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2011.
- McKINLEY, John. Pode
haver perdão sem arrependimento? Partes 1 e 2. Artigos publicados pela
Talbot School of Theology, 2017.
- PEIXOTO, Leandro
B. A Mão de Deus: A Mensagem do Profeta Joel e a
Providência de Deus na História. 1ª ed. Rio de Janeiro: Pro Nobis
Editora, 2021.
- SPROUL, R. C. Estudos
Bíblicos Expositivos em Mateus. 1ª ed. São Paulo: Editora Cultura
Cristã, 2017.
- WITTMER, Mike. Podemos
perdoar quando o ofensor não se arrepende? Artigo publicado pelo The
Gospel Coalition (TGC), 2024.

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