O crescimento dos relatos de abuso sexual infantil na sociedade exige uma resposta teológica firme, clara e fundamentada nas Escrituras. A pedofilia não é apenas um crime hediondo sob a lei civil; é uma "perversão abjeta" e uma violação direta do projeto de Deus para a sexualidade e a proteção dos vulneráveis.
Como
afirma o teólogo reformado John Frame:
"É
um tipo especialmente perverso de fornicação... porque tira proveito de quem
pode ter pouca compreensão do que está acontecendo; e segundo, porque impõe um
trauma sobre a vítima, com consequências para toda a vida." [1]
1. A
Condenação Bíblica e a Terminologia
Embora
o termo "pedofilia" seja uma classificação clínica moderna, os atos
que a definem são explicitamente condenados através de princípios morais e
categorias de pecado estabelecidas por Deus:
- Fornicação e
Adultério (Porneia): A Bíblia utiliza a
palavra porneia para descrever qualquer atividade sexual fora do
casamento entre um homem e uma mulher. O abuso infantil é uma forma
extrema e abominável de fornicação.
- Falta de
"Afeição Natural": Paulo descreve a
decadência moral em Romanos 1:31 e 2 Timóteo 3:2 como sendo astorgos
(sem afeição natural). O pedófilo age de forma desumana, quebrando o
instinto básico de proteção ao vulnerável.
- O
"Escândalo" contra os Pequeninos: Em
Mateus 18:6, Jesus adverte que aquele que escandalizar (skandalizo
— causar tropeço/queda) um pequenino sofreria um juízo severo. O abuso
destrói a confiança e coloca um obstáculo espiritual devastador no caminho
da criança.
- Pederastia no Novo
Testamento: Conforme define Neil Yorkston, a
pederastia é o comportamento homossexual cujo objeto é um jovem menino.
Termos como arsenokoitai e malakoi (1 Co 6:9) condenam essas
práticas que, no contexto greco-romano, frequentemente envolviam a
exploração de jovens por adultos. É uma afronta direta à ordem da criação
e uma perversão da autoridade [3].
2.
Desconstruindo Aparentes Defesas: Maturidade e Lei
Alguns
tentam, erroneamente, usar o contexto cultural do Antigo Oriente para suavizar
o abuso. No entanto, o pensamento reformado rejeita essa distorção:
A
Questão da Maturidade no Antigo Testamento
Diferente
das idades civis modernas, Israel baseava a maturidade em marcos de
responsabilidade: 20 anos para fins militares (Nm 1:2-3) e 30 anos para o
serviço sacerdotal pleno (Nm 4:3). O casamento pressupunha a puberdade e a
capacidade de "deixar pai e mãe" para gerir um novo lar (Gn 2:24).
Como pontua Jochem Douma:
"Dar
um relógio de pulso a uma criança de três anos seria estranho...
Semelhantemente, é errado abusar sexualmente de uma criança. As frutas somente
amadurecem na estação apropriada." [2]
Deuteronômio
22:28-29: Proteção, não Premiação
Este
texto muitas vezes é mal interpretado como uma defesa do agressor. Uma análise
exegética reformada [4] esclarece que:
1. Não é
sobre estupro violento: O texto para estupro forçado está nos
versículos 25-27, onde o homem é morto.
2. Sedução
de uma moça em idade de casar: O termo na'arah
refere-se a uma jovem pós-puberdade. A lei obrigava o homem a pagar o dote,
casar e perder o direito ao divórcio, garantindo o sustento da mulher em uma
cultura onde a perda da virgindade fora do casamento era uma sentença de
miséria social.
3. Inaplicabilidade
à Pedofilia: Aplicar este texto a crianças é uma violência
hermenêutica, pois uma criança não possui capacidade física ou jurídica para o
matrimônio bíblico.
3.
Causas, Incesto e a Responsabilidade da Igreja
A
tradição reformada identifica que a negligência na disciplina e a proibição do
que Deus ordenou (como o celibato obrigatório em certas tradições) podem criar
ambientes propícios para o escândalo. Além disso, o incesto (Lv 18 e 20) é uma
traição ainda mais profunda, pois usa a autoridade familiar para silenciar a
vítima.
A
Igreja de Cristo não pode ser um refúgio para criminosos. Segundo Yorkston, se
a ofensa ocorrer entre cristãos, os líderes devem agir com firmeza, despojando
o ofensor de cargos e responsabilizando-o [3]. A missão da igreja é tríplice:
1. Não
acobertar: Ocultar o pecado fere a santidade de Deus.
2. Denunciar:
Casos comprovados devem ser levados às autoridades civis (Rm 13).
3. Pastorear
a vítima: Oferecer cuidado terapêutico e espiritual para restaurar a alma
maculada pela violência.
Referências
Bibliográficas
[1] FRAME,
John M. A Doutrina da Vida Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p.
725-726. [2] DOUMA, Jochem. Os Dez Mandamentos: Manual para a vida Cristã.
Recife: Editora CLIRE, 2019, p. 303-306. [3] YORKSTON, Neil.
"Pederastia". In: Dicionário de Ética Cristã. São Paulo:
Cultura Cristã, 2007, p. 440-441. [4] WENHAM, Gordon. Exploração do Antigo
Testamento: Deuteronômio. (Análise contextual de Dt 22).

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